Eu não sei desenhar. Você sabe?

Retrato baseado em foto - Pastel seco sobre papel texturizado

O título deste texto é, na verdade, um convite para reflexão. Depois de ler o texto do arquiteto norte americano Jim Leggitt (Jim Leggitt's Early Drawings: High School 1968!) falando sobre suas primeiras experiências gráficas resolvi também falar um pouco sobre o assunto. Para quem não sabe, este arquiteto é o autor do livro "Drawing Shortcuts - developing quick drawing skills using today's tecnology" além de ser um grande desenhista e ilustrador. Na sua postagem ele comenta como aconteceu seu processo de aprendizado do desenho. É muito interessante observar como seu traço e técnica amadureceram ao longo dos anos. Desta forma, peço licença para contar um pouco da minha experiência.

A primeira vez que tive contato com técnicas formais de desenho foi em 1991 quando, ainda pré-universitário, fiz o curso do professor Eneas Botelho. Este curso preparava alunos para uma prova de habilidade específica sobre desenho que era parte do vestibular para arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Sempre gostei de desenhar e me lembro bem de ir ao primeiro dia de aula achando que já tinha algum domínio sobre o assunto. Tinha essa sensação por causa do costume de desenhar perspectivas de casas da minha vizinhança ou imaginadas. Esses desenhos eram feitos baseados unicamente nas instruções que, seguindo uma dica de meu pai, encontrei na extinta enciclopédia Delta Universal. Dois desses desenhos podem ser vistos nas Imagens 2 e 3. Bom, depois que iniciei as aulas percebi meu grande engano. Durante o curso, enquanto era apresentado às diversas técnicas de desenho e à geometria descritiva, constatei, pela primeira vez, que ainda tinha muito o que aprender.

Imagem 2 - Casa desenhada aos 14 anos - 1988 (aprox.)
Imagem 3 - Casa desenhada aos 14 anos - 1988 (aprox.)

Quando terminei esse curso e fui aprovado no vestibular me lembro também de entrar na escola de Arquitetura e Urbanismo acreditando que já sabia desenhar alguma coisa uma vez que havia passado um ano estudando e desenhando com o professor Eneas Botelho. Novamente um grande engano! Logo no primeiro semestre cursei a disciplina Desenho de Observação com o arquiteto e artista plástico Nearco Araújo. Recordo bem das aulas que ele usava para nos apresentar seus desenhos. Enquanto admirava seus trabalhos eu constatava, mais uma vez, que ainda tinha muito o que aprender. Nesta época também foram de enorme valia e aprendizado as disciplinas Técnicas de Representação I e II que cursei com a professora Dra. Zilsa Santiago a quem devo a assimilação de diversas técnicas de perspectiva e de representação gráfica arquitetônica.

As imagens 4 e 5 mostram desenhos feitos para as disciplinas Projeto Arquitetônico I e IV respectivamente. Notem a nítida evolução em relação aos primeiros desenhos. Vale também observar que durante grande parte da minha graduação fui estagiário do escritório Nasser Hissa Arquitetos Associados. Considero essa fase que passei por lá como uma segunda escola na qual colhi valiosas lições sobre arquitetura, projeto e gerência de escritório e onde conheci grandes profissionais da área. Lembro bem de passar um bom tempo olhando os desenhos pregados nas pranchetas dos arquitetos deste escritório para buscar referências.

Imagem 4 - Croqui de projeto de residência de Oswald Bratke para pesquisa da disciplina Projeto Arquitetônico I
Imagem 5 - Projeto de residência da disciplina P.A. IV - 1994

Depois que me formei (1997), voltei a ter aquela equivocada sensação de que agora sim, depois de cinco anos dentro de uma escola de arquitetura, eu estaria dominando o desenho. Outro grande engano. Montei escritório de arquitetura e vi que deveria continuar aperfeiçoando minhas técnicas e a procurar inspiração nos grandes mestres tanto da arquitetura quanto da representação gráfica. Um deles foi Helmut Jacoby que, para mim, foi um dos maiores ilustradores da história da arquitetura. Tive o privilégio de ser presenteado, pelo professor Eneas Botelho, com dois raros livros de ilustrações arquitetônicas deste arquiteto que até hoje são fonte de consulta e referência. As imagens 6, 7, 8 e 9 mostram estudos em perspectiva sendo a primeira quando estava com 2 anos de formado, a segunda com 13 anos, a terceira com 15 anos e a quarta com 21 anos atuando como arquiteto.

Imagem 6 - Estudo para residência unifamiliar - 1999
Imagem 7 - Estudo para residência unifamiliar - 2010

Você deve estar se perguntando onde estou querendo chegar, não? Na verdade é simples. Quero mostrar ao leitor, e principalmente ao estudante que está iniciando, que aprender a desenhar é um processo constante. Jamais podemos parar de praticar e de estudar e sempre haverá margem para aperfeiçoamentos. Hoje (2019) já posso contabilizar mais de 20 anos de formado e mais de 25 anos ensinando desenho. Todo esse tempo e razoável experiência me fizeram ver, com bastante nitidez, que não devo nunca parar de estudar e de me aprimorar.

Imagem 8 - Estudo para residência com pintura digital - 2012
Imagem 9 - Estudo para residência com desenho e pintura digitais - 2018

Então é isso caro leitor, não fique constrangido ou desestimulado durante suas aulas de desenho ou durante seu processo de produção gráfica seja ela manual ou digital. Lembre-se que a caminhada é longa e que o mais importante não é o resultado final e sim o que você absorve durante o processo. Estabeleça um objetivo e tente chegar lá. Me lembro bem que nas aulas do professor Nearco eu olhava com grande admiração para seus desenhos, mas nunca me passou pela cabeça que eu não poderia desenhar como ele, mas sim que um dia poderia chegar a atingir o seu nível. Desenhar bem é o resultado de muita prática, amadurecimento e estudo. Hoje em dia prefiro achar que ainda não sei desenhar. E você?