Perspectiva à mão livre no iPad a partir de base 3D



Toda vez que aparece uma nova tecnologia a tendência é que esta adote o natural discurso da eliminação da sua antecessora. Dentro do escopo da representação gráfica aplicada à arquitetura não são poucos os relatos que, desde a metade da década de 1980, previam, por exemplo, a extinção do desenho à mão livre como forma de registrar o processo de criação do arquiteto. Ocorre que a bibliografia pertinente ao tema e a própria produção gráfica dos escritórios vem mostrando exatamente o contrário. O desenho à mão livre persiste como forte instrumento de explicitação das ideias do arquiteto tanto nas fases de criação quanto nas de apresentação de projetos. 

Essa persistência, entretanto, não significou uma estagnação dos instrumentos e técnicas inerentes à essa prática. Já discutimos em postagens anteriores (Clique aqui), por exemplo, as possibilidades concretas do uso dos tablets, seus aplicativos e canetas para a produção de peças gráficas com acabamentos NPR (Non Photo Realistic) extremamente semelhantes aos conseguidos por meios totalmente analógicos. A qualidade de aplicativos como o Procreate e as tecnologias de comunicação por Bluetooth presentes em canetas como a Apple Pencil (meus instrumentos de trabalho) permitem total naturalidade e liberdade na hora de traçar linhas e aplicar cores simulando grafites, lápis de cor, marcadores, canetas nanquim, aquarelas etc. 

Essa postagem mostra o processo de desenho de uma das perspectivas de um projeto do arquiteto cearense Gustavo Bruno Andrade Amorim a partir de base volumétrica produzida pelo também arquiteto cearense Nikássio Freire que, nesse projeto, também foi o responsável pela produção de três imagens com acabamento PR (Photo Realistic). A confecção dessa ilustração surgiu a partir de uma proposta minha. Sugeri que o Gustavo mostrasse a opção de apresentação à mão livre para seu cliente e para os demais envolvidos no empreendimento afim de sentir qual seria o retorno dessas pessoas em relação ao desenho. A resposta foi, na minha opinião, excelente. O autor do projeto me relatou que houve uma ótima receptividade de todos os que puderam ver o desenho. É claro que esse feedback não é conclusivo e tão pouco aponta alguma tendência ou algo parecido, mas fiquei muito feliz com o retorno e ainda mais seguro sobre minhas convicções sobre esse assunto. 

Para mim não resta dúvida quanto à pertinência desse tipo de representação, mas também não há como sustentar (e nem é necessário) que a sua produção negue a tecnologia digital. As imagens abaixo mostram, por exemplo, que a base 3D foi fundamental para poupar tempo e garantir a correta perspectiva do desenho. O uso de um iPad e seus aplicativos foram também fundamentais para otimizar a aplicação de linhas e cores, ou seja, o digital foi o alicerce de sustentação da ação analógica representada pelos riscos na tela de vidro. 

Houve um tempo em que o desenho à mão livre era a única alternativa do arquiteto e hoje é evidente que isso mudou, mas também é fato que ele continua como uma das alternativas de representação gráfica. O caro leitor sabe que prefiro esse tipo de desenho, mas gosto de deixar claro que hoje não o considero melhor nem pior que os renderings totalmente digitais, apenas tenho certo de que ele é uma ótima alternativa, dentre tantas outras, para a apresentação de projetos. Se ainda restar alguma dúvida recomendo uma olhada no fantástico trabalho do meu amigo Eduardo Bajzek

Vejam algumas imagens do processo abaixo. Até a próxima!

Ficha técnica:
Equipamento: iPad Pro 9.7" 128GB
Acessório: Apple Pencil
Software: Procreate App (pincéis personalizados) 
Trilha sonora: Led Zeppelin e Legião Urbana :)
Base 3D produzida pelo arquiteto Nikássio Freire


Estudo à lápis e acabamento linear - Aplicativo Procreate

Pintura base e acabamento final com as sombras